terça-feira, 1 de novembro de 2011

Outono


Para a Piedade

Uma lâmina de ar
Atravessando  as  portas. Um  arco,
Uma flecha cravada no OUTONO. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É OUTONO. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado, como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É Outono.
A pouco e pouco despem-se as palavras.


O poema é de Joaquim Pessoa

1 comentários:

© Piedade Araújo Sol 5:37 da tarde  

obrigada
pela dedicatória
pelo poema do Joaquim Pessoa de quem gosto muito
pela foto

são momentos como estes que nos fazem felizes

um beij

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